Falo-te com palavras que não se ouvem.
Reparo-te com olhos que não se abrem.
E tu...
"O nosso espaço ecoa em nós...". Vou começar.
Das vezes que somos nós, da essencialidade que sentimos cá dentro, nessas vezes é fácil conhecer-mo-nos ou pelo menos é um princípio para isso. Eu já fui muita coisa. Eu posso dizer que já fui a tua pessoa por um dia, só porque pude entrar em ti.
Sabias que as conversas que mantenho cá dentro ainda ressoam melodias passadas?
Sabes que a intimidade é o cerne de tudo. Vou tentar.
Diz-se por aí que não é assim tão díficil, diz-se também que é o tormento dos tormentos. Quem sou eu para concordar com qualquer uma delas? Eu construo em mim o que sinto.
Eu sei que sou difícil, há quem diga peculiar, estranho, eu digo que vivo num estranho mundo peculiarmente difícil.
Se há algo, se reside de facto algo cá, onde tudo explode, esse algo só se materializa na intimidade. E a minha intimidade... a minha intimidade, a porta para mim, a porta para um nós, vou realmente tentar.
Eu já mandei calar, eu já me afastei, até houve vezes em que me aproximei demais, eu já chorei, eu já virei costas. E tudo, tudo porque a barreira que crio em mim, quando se tenta o abraço, o toque, o compreender, o aninhar, o sentir. Há mundos que se criam, com chaves diversas, e a quem pertence a chave? A chave-mestra?
Eu não deixo, eu simplesmente não consigo deixar. Eu sei que as palavras de nada serviram.
Mas... porra, como custa, dizer isso... como custa. Como custa saber que poderia haver um equílibrio. E há sempre aqueles momentos onde estamos completamente siderados a contemplar um qualquer sorriso em nós, a saboreá-lo, a entende-lo, e depois quando alguém tenta, a frieza abate-se, o nonsense invade, e o corpo rende-se e chora. A minha intimidade é algo mais que me transcende, eu não consigo desvendá-la, não... não é a partilha dum leito, não, não é um só beijo, é a barreira desmoronar-se, é a entrega, é a segurança que sim, que pode ser, é o dar a conhecer, é aceitar e poder emanar a natureza residente, é o saber que não há retorno, e mesmo assim continuar, arriscar...
É aquele beijo repleto de fôlego interior, é aquele orgasmo de incensos da nossa mente, é a música embalar-me e eu não a negar só porque não quero ser embalado, é aquela entrega sem receios, sem medos, sem obstáculos, é aquela mão que se sabe poder estender-se. Penso eu...
E... tu alguma vez entraste em mim? Alguma vez te sentiste cá dentro? Te reflectiste? Já alguma sentiste aquilo de que falo em mim? A barreira nega-se a quebrar... eu sei que sim, ela nega-me entregas e reclama dores de alguêm, ela impede passagens e abre portas de desesperos. E eu não sei como dizer a mim: "Fica..."
A descodificação do meu intímo, o saber encontrar uma brecha, o espreitar e perceber que sem sentido de sanidade eu posso até ir em frente. O amor é só um caminho, a intimidade é o percurso. E eu só sei que quero caminhar, mas não encontro onde começar.
Eu não deixo, eu não consigo deixar, tenho medo sei lá, é demasiado grande esse mundo para mim, tenho receio e assim tenho medo ou o venero demais e volto a ter medo, que merda, secalhar sou mesmo um merdas. Mas não consigo deixar ninguém tentar domar a intimidade, afasto, refugio-me ainda mais em mim, petrifico, e não reajo, sou tão medricas.
-"Eu tento ainda mais, eu não desisto", dizes tu.
-"Não posso, é demais, percebe isso, eu acabo por magoar-te ainda mais, eu queria, acredita que sim." E aí os olhos derramam-se, procuram esconderijos num qualquer espaço que não envolvas, os gestos complicam-se, o corpo levanta-se, serpenteia-se e perde-se. E tu repetes, e eu digo que não dá, não consigo, é mesmo verdade, como queria que entendesses.
Eu queria mesmo, merda. Os cheiros das tuas velas só me fazem sentir ainda mais culpado, mas no fim de contas, a culpa não reside em mim, sei lá eu, eu só não consigo... Pedes-me um abraço, eu nego-to, tu levantas-te, reclamas isso, só isso, eu digo que não, não pode ser, entende, merda... Sabes que se te abraço, não sou eu que me afundo mais, és tu. Perguntas se há alguém, perguntas se é algo em ti, se é o sexc, o que poderia ter sido diferente, e estendes os teus braços de encontro a mim. Não faças isso, que merda, não me faças isso, não és tu, sou eu, não há alguém, sou mesmo eu, a noite de ontem foi delirante, fazer amor contigo é lindo, e tu és linda e perfeita, mas não és tu, sou só eu. Então "porquê" murmurram os teus braços querendo ramificar-se em mim... E eu digo-te que tenho de ir, estou-me a conhecer e desconhecer demasiado hoje, é muita coisa, que merda, é tanta coisa, sinto-me pequeno e este espaço nem é meu, é teu, e não há fotos e músicas minhas aqui, e onde me seguro eu?
- "Fica", - "Não posso, tens de me deixar ir, não estou bem, estou a abater-me em mim próprio e tenho medo e não posso ficar, e nem o beijo que despertas em mim me poderá fazer ficar."
Eu queria poder dizer-te que quero ficar, mas o certo é que quando passar aquela porta levo mais de ti do que de mim... e assim nunca lá chegarei...